Traduzo por profissão
Se pinto é por devaneio
Fotografo por enleio
Escrevo por precisão
Nessa precisão do último verso vemos dois aspectos fundamentais do livro: a necessidade de expressão poética e o cuidado técnico com a palavra. Um tipo de "navegar é preciso", como o general Pompeu ordenava aos romanos, e que hoje também comporta as duas interpretações.
Celina não possui o vício preguiçoso de muitos poetas contemporâneos em ostentar desprezo por leituras e pelo uso de técnicas: lança mão de rimas, versos metrificados e tantos outros recursos específicos. Porém, sabe que esses artifícios devem ser usados em função da idéia poética, e não o contrário. Sabe que o poema é, sobretudo, o resultado da construção consciente de uma expressão artística, restando ao leitor fazer as viagens no momento da fruição, como se lembrasse o verso final de Pessoa: "Sentir? Sinta quem lê".
Com todos esses aspectos, a poesia de Celina Portocarrero transita com mestria no terreno inefável do tempo, que é, a rigor, a grande matéria da poesia. Enquanto situa o presente e evoca um passado de forma suave, a autora trilha um belo caminho, acessível (pela dicção inteligível) e firme (pela experiência com a palavra), pela atemporalidade poética.
Henrique Rodrigues*
* Henrique Rodrigues é poeta e coordenador de projetos literários.
"Retro-Retratos"
Celina Portocarrero
7 Letras
68 páginas
R$ 25,00